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17.4.08
5.4.08
Isso ainda vai virar um livro
Dizem que para um homem se considerar realizado precisa de duas coisas: ter um filho e escrever um livro.
Bem, a primeira opção não rola ainda... hehe... mas a segunda é um desejo meu antigo. É por isso mesmo que eu estou começando esta postagem "Isso ainda vai virar um livro". Vou aos poucos editando esse material para que ele vá tomando forma. Não tenho uma "fórmula" de como escrever, mas vou começar (se não começar, quem fará por mim? :D)
A "trama" eu já pensei (se quiserem opinar, fiquem a vontade):
Mais uma vez, se quiserem opinar sobre o tema, podem comentar o blog. Começarei a escrever não sei quando! hehe
Bem, a primeira opção não rola ainda... hehe... mas a segunda é um desejo meu antigo. É por isso mesmo que eu estou começando esta postagem "Isso ainda vai virar um livro". Vou aos poucos editando esse material para que ele vá tomando forma. Não tenho uma "fórmula" de como escrever, mas vou começar (se não começar, quem fará por mim? :D)
A "trama" eu já pensei (se quiserem opinar, fiquem a vontade):
- Um cara que é muito alegre, mas, para isso, "suga" a vitalidade dos outros.
- É inocente. Isso é sobrenatural e ele não tem controle, mas tem como "devolver" em atos.
- Há uma certa "transferência de vitalidade", porém ele não acha que é um dom, mas um ato de justiça, pois antes havia sugado de outros.
- Ele encara isso como um fardo.
- Quando ele nasce, sua mãe morre e seu pai entra em depressão. (Ele "sugou" a vitalidade dela)
Mais uma vez, se quiserem opinar sobre o tema, podem comentar o blog. Começarei a escrever não sei quando! hehe
9.1.08
14.8.07
Nunca confie nas baratas!
"Nunca confie nas baratas", dizia minha mãe já no alvorecer de minha mocidade. Não entendia ao certo o que ela queria dizer com essas palavras, mas ignorava como quem nunca precisou se utilizar de tal conselho, já que nunca me veio na cabeça de precisar confiar nas tais.
Vivia eu numa gaiola. Sei que não é o lugar mais propício para se passar uma vida, mas confesso de que nunca senti falta de nada. Afinal, nunca conheci nada além de meus singelos 20cm². Tanto não sentia falta que vivia a cantar. Sim! Como era bonito ver a claridade surgir pela janela e os primeiros raios de sol entrarem em minha casa! Me batia forte o coração e uma vontade louca de cantar... cantar bem alto, e vibrar com tão maravilhosa manifestação divina!
Meus amigos, também em gaiolas, cantavam comigo! Oh surpresa! Os conhecia só de canto. Nunca os vi. Mas tinha certeza da presença de cada um. Toda manhã estavam lá, junto a mim, a cantar uma bela canção para o sol! O sol que trazia a luz, que trazia o dia, que trazia... aqueles seres estranhos que me davam água e comida! Que sede! Dessa vez esqueceram de trocar minha água. Acho que eles sentiram a pressãode minha greve de sede e trocaram a água. JÁ TAVA CRIANDO LÔDO! Argh! ... bem... ainda bem que agora já fora trocada e posso viver em paz.
Água e alpiste... é só o que me interessa. Para consegui-los passo até minha vida toda cantando, se for preciso. Água e alpiste.
Para ser bem sincero, nunca vi uma barata. Sabe, é que costumo dormir quando elas aparecem... e nem vou me dar o trabalho de não dormir. Elas que vivam sua vida e eu vivo cá a minha vidinha a 20cm². Com água e alpiste, claro.
Pois bem... não era manhã, mas estava no finzinho da tarde... e eu, como de costume, a me despedir do sol. Ele que trouxe tanta alegria para o meu dia. Ele que trouxe a luz. Ele que trouxe o dia. Ele que trouxe água e alpiste. E cantava como quem não se importasse com o que achassem de mim. Cantava porque queria... e meus amigos cantavam comigo. Amigos que eu só conhecia de canto. Nunca os vi, mas eram meus amigos.
Aquele pôr de sol realmente estava belíssimo! Não conseguia me conter com tanta alegria. Cantava e cantava sem parar. Percebi que meus amigos já haviam cessado o canto há um tempo. Eu, porém, não tinha motivos para parar. Era um dia como qualquer outro. Um dia, como qualquer outro que eu precisava cantar, cantar e cantar.
Subitamente me apareceu um pássaro! MEU AMIGO! (Pensei) Mas o que você está fazendo fora da gaiola? Não sabe que por aqui não existem pássaros a voar? Volte para seu lugar e continue a cantar comigo, vamos!
Confesso que fiquei angustiado ao ver que o tal amigo era cerca de 5 vezes meu tamanho, e vinha em minha direção como quem ignorasse o que eu estava dizendo. Percebi que sua intenção não era boa, principalmente quando ele travou seu bico afiado em meu pescoço e arrancou algumas penas.
Puxa! Aquilo doeu! Percebi que de amigo, aquele pássaro não tinha nada, e tratei de me afastar das paredes de minha gaiola. Juro que em toda minha vida nunca reclamei de meu espaço, mas nesse momento difícil, queria que minha casa tivesse bem mais de 20cm².
Tratava de me afastar das garras e do bico de meu então inimigo, mas ele era bem maior que eu. Meu espaço era tão pequeno!
Não lembro bem como aconteceu, mas aquela dor que eu estava sentindo passou. Na verdade eu não sentia mais dor alguma, nem sentia mais vontade de cantar. Aquele pássaro enorme, como num bater de asas havia desaparecido. Estava eu imóvel, e sem reação alguma ao ar que entrara
em meus pulmões.
Como quem deseja a carniça foram aparecendo uma, duas, três baratas. Em pouco tempo eu estava encoberto delas. Foi aí que aquela frase me veio à cabeça. E foi aí que finalmente percebi o quanto ela fazia sentido: "Nunca confie nas baratas!"
Henrique Gogó
Vivia eu numa gaiola. Sei que não é o lugar mais propício para se passar uma vida, mas confesso de que nunca senti falta de nada. Afinal, nunca conheci nada além de meus singelos 20cm². Tanto não sentia falta que vivia a cantar. Sim! Como era bonito ver a claridade surgir pela janela e os primeiros raios de sol entrarem em minha casa! Me batia forte o coração e uma vontade louca de cantar... cantar bem alto, e vibrar com tão maravilhosa manifestação divina!
Meus amigos, também em gaiolas, cantavam comigo! Oh surpresa! Os conhecia só de canto. Nunca os vi. Mas tinha certeza da presença de cada um. Toda manhã estavam lá, junto a mim, a cantar uma bela canção para o sol! O sol que trazia a luz, que trazia o dia, que trazia... aqueles seres estranhos que me davam água e comida! Que sede! Dessa vez esqueceram de trocar minha água. Acho que eles sentiram a pressãode minha greve de sede e trocaram a água. JÁ TAVA CRIANDO LÔDO! Argh! ... bem... ainda bem que agora já fora trocada e posso viver em paz.
Água e alpiste... é só o que me interessa. Para consegui-los passo até minha vida toda cantando, se for preciso. Água e alpiste.
Para ser bem sincero, nunca vi uma barata. Sabe, é que costumo dormir quando elas aparecem... e nem vou me dar o trabalho de não dormir. Elas que vivam sua vida e eu vivo cá a minha vidinha a 20cm². Com água e alpiste, claro.
Pois bem... não era manhã, mas estava no finzinho da tarde... e eu, como de costume, a me despedir do sol. Ele que trouxe tanta alegria para o meu dia. Ele que trouxe a luz. Ele que trouxe o dia. Ele que trouxe água e alpiste. E cantava como quem não se importasse com o que achassem de mim. Cantava porque queria... e meus amigos cantavam comigo. Amigos que eu só conhecia de canto. Nunca os vi, mas eram meus amigos.
Aquele pôr de sol realmente estava belíssimo! Não conseguia me conter com tanta alegria. Cantava e cantava sem parar. Percebi que meus amigos já haviam cessado o canto há um tempo. Eu, porém, não tinha motivos para parar. Era um dia como qualquer outro. Um dia, como qualquer outro que eu precisava cantar, cantar e cantar.
Subitamente me apareceu um pássaro! MEU AMIGO! (Pensei) Mas o que você está fazendo fora da gaiola? Não sabe que por aqui não existem pássaros a voar? Volte para seu lugar e continue a cantar comigo, vamos!
Confesso que fiquei angustiado ao ver que o tal amigo era cerca de 5 vezes meu tamanho, e vinha em minha direção como quem ignorasse o que eu estava dizendo. Percebi que sua intenção não era boa, principalmente quando ele travou seu bico afiado em meu pescoço e arrancou algumas penas.
Puxa! Aquilo doeu! Percebi que de amigo, aquele pássaro não tinha nada, e tratei de me afastar das paredes de minha gaiola. Juro que em toda minha vida nunca reclamei de meu espaço, mas nesse momento difícil, queria que minha casa tivesse bem mais de 20cm².
Tratava de me afastar das garras e do bico de meu então inimigo, mas ele era bem maior que eu. Meu espaço era tão pequeno!
Não lembro bem como aconteceu, mas aquela dor que eu estava sentindo passou. Na verdade eu não sentia mais dor alguma, nem sentia mais vontade de cantar. Aquele pássaro enorme, como num bater de asas havia desaparecido. Estava eu imóvel, e sem reação alguma ao ar que entrara
em meus pulmões.
Como quem deseja a carniça foram aparecendo uma, duas, três baratas. Em pouco tempo eu estava encoberto delas. Foi aí que aquela frase me veio à cabeça. E foi aí que finalmente percebi o quanto ela fazia sentido: "Nunca confie nas baratas!"
Henrique Gogó
Palavras-chave:
"nunca confie nas baratas",
baratas,
conto,
estória
A mariposa e a borboleta
Numa serra de beleza inebriante, não muito distante da cidade, encontraram-se a lagarta-borboleta e a lagarta-mariposa.
- Querida, nem te conto! Tu vai ficar abismada, mas tu sabe que quando eu tenho alguma opinião, eu digo logo, né?
- Me conte logo, vá!
- Leve a mal não, mas tu é feia, viu! Bem... diria que maltratada, descabelada, descuidada...
A futura-mariposa ficou desolada com tal sinceridade. Mesmo assim, deu a volta por cima e respondeu:
- Até parece que tu é a "beleza esplendorosa".
- É verdade que não sou, mas há um porém: em breve vou entrar numa crisálida. Num sei se você sabe, mas essa tal de crisálida é mais ou menos como um salão de beleza particular, fantástico, em que quando eu sair de lá, vou ficar linda, super-fashion. Vou virar borboleta, querida.
- Sinto muito desanimar sua vanglória, mas o mesmo acontece conosco, mariposas.
- Amôor... Acorda queridinha! Eu vou me tornar uma bela borboleta colorida, de vôo delicado, fascinante aos olhos dos homens. E você... ha ha ha... você vai ser uma mariposa cinza, truncadinha, com vôo desengonçado e... PELUDA! Argh! De parecida, só o fato de termos asas... e olhe lá!
Infelizmente a lagarta-borboleta estava certa. Que larva de inseto lepidóptero desgraçada! Pensou a outra, retirando-se para um cantinho escondido, onde chorava sem parar.
Uma lesma, notando o berreiro que se tornava cada vez mais alto, aproximou-se lentamente para não assustar. Exclamou então com um tom animador:
- Chorar é a mais bela expressão de alegria que a alma pode realizar...
- Alegria? Só me faltava essa! Não me bastasse uma impiedosa, agora me aparece uma louca, dizendo que meu choro é de alegria! Minha filha, eu choro é de tristeza mesmo! Choro porque me deparei com a realidade, e a verdade é que me dói! Se por acaso você confundiu meu berreiro com uma gargalhada, peço perdão. Vou tentar deixar mais clara a minha intenção. E desatou a chorar convulsivamente.
- ...a mais simples, a mais expontânea, a mais incontrolável. Não ter esse controle é ser livre, é não precisar mais remar, mas ser levado pela correnteza. Continuou a lesma, desconsiderando que fora interrompida.
Como a lagarta a ignorava, continuou:
- A felicidade é sermos o que fomos criados para ser. Como saber o que devemos ser, sem conhecer a nossa verdade? E como pode o caminho à felicidade ser de tristeza? Tu choras de alegria, e não percebes.
- Agora tenho certeza. Você é louca! Escute só: Sempre soube que o que sou hoje é apenas um estágio, uma fase, e que mais cedo ou mais tarde me tornaria uma mariposa...
- Livre, capaz de voar por entre os campos, provando do néctar das mais belas flores...
- Peluda, com traços grosseiros e asas de aparência repugnante. Uma mariposa, não uma borboleta!
Fez-se então um breve momento de silêncio, logo interrompido inesperadamente pela lesma, que não conseguiu conter uma gostosa gargalhada.
- Recuso-me a continuar com esse diálogo! Indagou a que chorava.
- Perdoe minha falta de sobriedade, mas é que isso é tão óbvio!
- O que?
- Jamais tu te tornarás uma borboleta, assim como lesma não é caracol, ou caranguejo não é siri, ou gafanhoto não é mané-magro...
- !?!
- Todos somos diferentes, cada qual com sua particularidade. Não carrego minha casa nas costas, como faz o caracol, isso me torna por vezes mais vulnerável, mas em compensação, por não carregar peso extra, posso correr mais que ele.
- Correr? Você?!
- Bem, foi só um exemplo...
- Oh, sim... entendo.
- Entende?
- Sim, agora compreendo o sentido da vida. Não serei borboleta jamais, pois não nasci para ser borboleta, nasci para ser mariposa! Sendo assim, minha vontade agora é de ser mariposa, e serei da maneira mais plena possível.
- Vejo que realmente compreendeu.
- Sou grata a você.
- Não seja. Não a mim.
- Por que não devo?
- Por que fui apenas intermédio para que pudesses aceitar a verdade que já tinha sido revelada.
- A quem devo agradecer, então?
- À própria verdade, que sempre fora e que nunca deixará de ser ela mesma.
- Desse dia em diante a lagarta-mariposa passou a viver de maneira nova, sempre paciente quanto ao futuro, e intensamente quanto ao presente.
Nunca mais ouviu-se notícia sobre a lesma. Nem seu nome ou paradeiro.
A lagarta-borboleta... oh sim, ia me esquecendo... tornou-se uma borboleta, tão bela quanto descrevia que se tornaria depois de crisálida.
Borboleteando por entre as flores do jardim de uma casa terra-cota, deparou-se com ilustre presença, e exclamou surpresa:
- Menina... quase que não te reconhecia! Disse, ao avistar a mariposa de longe (esta também já havia saído do casulo).
Deu então dois beijinhos com que em seu rosto, porém sem encostar. Continuou então:
- Ixi... mas você está bem mais piorzinha do que eu imaginei que se tornaria... e quanto pêlo nas costas! Iga! Amorzinho, o que tu tá fazendo acordada hora dessas? Não sabe que as mariposas têm hábito noturno? Ah... já entendi... tá querendo inovar, né? É uma daquelas líderes de algum movimento revolucionário pró-idealista e contra-todo-o-resto, né?
- Não, nada disso! Vim apenas lhe visitar.
- E contemplar minha beleza?! Olha minhas asas! Lindas, né?
- Não... digo, suas asas são muito belas sim, mas não vim por causa disso.
- Veio porque, então? Se aproxegue, venha.
Pousaram então numa pétala de cecília e a mariposa continuou:
- Gostaria de lhe dizer algo que descobri.
- O quê? Não faça suspense! Diga logo!
- A verdade.
- A verdade?!
- Sim! A verdade!
- A verdade que eu conheço é que sou linda, e você é feia, querida.
- Este é o problema! Você só consegue ver isso. Só consegue ver o que lhe convém, ou o que irá aumentar sua própria afirmação para si mesma.
- Isso é fato!
- Não, o fato é que a ilusão de si e do mundo nos torna criadores de uma realidade falsa em que nós mesmos somos o centro dessa realidade.
- Acho que o Sol está começando a afetar alguma coisa nessa sua cachola.
- Limitas tua vida a pousar de flor em flor, tirando para si o que precisas, nunca parando muito em apenas uma, ou dando a mínima atenção para elas, pois para ti todas são iguais, ou tanto faz.
- Olha quem fala! Até parece que tu não faz o mesmo!
- Não faço. Na noite, um ponto de luz, no alto, é o bastante. É o referencial. É certo que também preciso das flores, e elas precisam de mim. Bebo do néctar de uma flor, e com meus pêlos (sim, esses pêlos “horríveis”), carrego a maior quantidade de pólen possível, como gratidão, e pouso em outra, nem que seja pela simples razão de polenizá-la, sem desta tomar nada. Tem outra coisa: meu referencial é a luz, não as flores. Se é a luz que me mostra as flores, porque parar nelas? Por outro lado, se fico apenas com a luz, de nada sirvo, pois além da luz, preciso das flores para sobreviver, e elas de mim. A luz porém, é o principal, pois sem ela, nada vejo.
- Menina! Tô abismada! Queria compreender tudo isso.
- Para tal fim tu precisarias ter pêlos e passar pela experiência da noite! Ah! E na escuridão, tuas belas cores de nada teria utilidade pois não seriam vistas nem por ti mesma.
- Acho que mudei de idéia.
- Já esperava por isso. Nem todos estão dispostos a aceitar o caminho que nos leva à verdade, pois quem não está nele não o compreende, mas que está nele o compreende e passa a distinguí-lo dos falsos.
A borboleta fez como quem estivesse atrasada para alguma coisa muito importante e despediu-se rapidamente da mariposa. Seguiram então cada qual o seu caminho.
Henrique Gogó
- Querida, nem te conto! Tu vai ficar abismada, mas tu sabe que quando eu tenho alguma opinião, eu digo logo, né?
- Me conte logo, vá!
- Leve a mal não, mas tu é feia, viu! Bem... diria que maltratada, descabelada, descuidada...
A futura-mariposa ficou desolada com tal sinceridade. Mesmo assim, deu a volta por cima e respondeu:
- Até parece que tu é a "beleza esplendorosa".
- É verdade que não sou, mas há um porém: em breve vou entrar numa crisálida. Num sei se você sabe, mas essa tal de crisálida é mais ou menos como um salão de beleza particular, fantástico, em que quando eu sair de lá, vou ficar linda, super-fashion. Vou virar borboleta, querida.
- Sinto muito desanimar sua vanglória, mas o mesmo acontece conosco, mariposas.
- Amôor... Acorda queridinha! Eu vou me tornar uma bela borboleta colorida, de vôo delicado, fascinante aos olhos dos homens. E você... ha ha ha... você vai ser uma mariposa cinza, truncadinha, com vôo desengonçado e... PELUDA! Argh! De parecida, só o fato de termos asas... e olhe lá!
Infelizmente a lagarta-borboleta estava certa. Que larva de inseto lepidóptero desgraçada! Pensou a outra, retirando-se para um cantinho escondido, onde chorava sem parar.
Uma lesma, notando o berreiro que se tornava cada vez mais alto, aproximou-se lentamente para não assustar. Exclamou então com um tom animador:
- Chorar é a mais bela expressão de alegria que a alma pode realizar...
- Alegria? Só me faltava essa! Não me bastasse uma impiedosa, agora me aparece uma louca, dizendo que meu choro é de alegria! Minha filha, eu choro é de tristeza mesmo! Choro porque me deparei com a realidade, e a verdade é que me dói! Se por acaso você confundiu meu berreiro com uma gargalhada, peço perdão. Vou tentar deixar mais clara a minha intenção. E desatou a chorar convulsivamente.
- ...a mais simples, a mais expontânea, a mais incontrolável. Não ter esse controle é ser livre, é não precisar mais remar, mas ser levado pela correnteza. Continuou a lesma, desconsiderando que fora interrompida.
Como a lagarta a ignorava, continuou:
- A felicidade é sermos o que fomos criados para ser. Como saber o que devemos ser, sem conhecer a nossa verdade? E como pode o caminho à felicidade ser de tristeza? Tu choras de alegria, e não percebes.
- Agora tenho certeza. Você é louca! Escute só: Sempre soube que o que sou hoje é apenas um estágio, uma fase, e que mais cedo ou mais tarde me tornaria uma mariposa...
- Livre, capaz de voar por entre os campos, provando do néctar das mais belas flores...
- Peluda, com traços grosseiros e asas de aparência repugnante. Uma mariposa, não uma borboleta!
Fez-se então um breve momento de silêncio, logo interrompido inesperadamente pela lesma, que não conseguiu conter uma gostosa gargalhada.
- Recuso-me a continuar com esse diálogo! Indagou a que chorava.
- Perdoe minha falta de sobriedade, mas é que isso é tão óbvio!
- O que?
- Jamais tu te tornarás uma borboleta, assim como lesma não é caracol, ou caranguejo não é siri, ou gafanhoto não é mané-magro...
- !?!
- Todos somos diferentes, cada qual com sua particularidade. Não carrego minha casa nas costas, como faz o caracol, isso me torna por vezes mais vulnerável, mas em compensação, por não carregar peso extra, posso correr mais que ele.
- Correr? Você?!
- Bem, foi só um exemplo...
- Oh, sim... entendo.
- Entende?
- Sim, agora compreendo o sentido da vida. Não serei borboleta jamais, pois não nasci para ser borboleta, nasci para ser mariposa! Sendo assim, minha vontade agora é de ser mariposa, e serei da maneira mais plena possível.
- Vejo que realmente compreendeu.
- Sou grata a você.
- Não seja. Não a mim.
- Por que não devo?
- Por que fui apenas intermédio para que pudesses aceitar a verdade que já tinha sido revelada.
- A quem devo agradecer, então?
- À própria verdade, que sempre fora e que nunca deixará de ser ela mesma.
- Desse dia em diante a lagarta-mariposa passou a viver de maneira nova, sempre paciente quanto ao futuro, e intensamente quanto ao presente.
Nunca mais ouviu-se notícia sobre a lesma. Nem seu nome ou paradeiro.
A lagarta-borboleta... oh sim, ia me esquecendo... tornou-se uma borboleta, tão bela quanto descrevia que se tornaria depois de crisálida.
Borboleteando por entre as flores do jardim de uma casa terra-cota, deparou-se com ilustre presença, e exclamou surpresa:
- Menina... quase que não te reconhecia! Disse, ao avistar a mariposa de longe (esta também já havia saído do casulo).
Deu então dois beijinhos com que em seu rosto, porém sem encostar. Continuou então:
- Ixi... mas você está bem mais piorzinha do que eu imaginei que se tornaria... e quanto pêlo nas costas! Iga! Amorzinho, o que tu tá fazendo acordada hora dessas? Não sabe que as mariposas têm hábito noturno? Ah... já entendi... tá querendo inovar, né? É uma daquelas líderes de algum movimento revolucionário pró-idealista e contra-todo-o-resto, né?
- Não, nada disso! Vim apenas lhe visitar.
- E contemplar minha beleza?! Olha minhas asas! Lindas, né?
- Não... digo, suas asas são muito belas sim, mas não vim por causa disso.
- Veio porque, então? Se aproxegue, venha.
Pousaram então numa pétala de cecília e a mariposa continuou:
- Gostaria de lhe dizer algo que descobri.
- O quê? Não faça suspense! Diga logo!
- A verdade.
- A verdade?!
- Sim! A verdade!
- A verdade que eu conheço é que sou linda, e você é feia, querida.
- Este é o problema! Você só consegue ver isso. Só consegue ver o que lhe convém, ou o que irá aumentar sua própria afirmação para si mesma.
- Isso é fato!
- Não, o fato é que a ilusão de si e do mundo nos torna criadores de uma realidade falsa em que nós mesmos somos o centro dessa realidade.
- Acho que o Sol está começando a afetar alguma coisa nessa sua cachola.
- Limitas tua vida a pousar de flor em flor, tirando para si o que precisas, nunca parando muito em apenas uma, ou dando a mínima atenção para elas, pois para ti todas são iguais, ou tanto faz.
- Olha quem fala! Até parece que tu não faz o mesmo!
- Não faço. Na noite, um ponto de luz, no alto, é o bastante. É o referencial. É certo que também preciso das flores, e elas precisam de mim. Bebo do néctar de uma flor, e com meus pêlos (sim, esses pêlos “horríveis”), carrego a maior quantidade de pólen possível, como gratidão, e pouso em outra, nem que seja pela simples razão de polenizá-la, sem desta tomar nada. Tem outra coisa: meu referencial é a luz, não as flores. Se é a luz que me mostra as flores, porque parar nelas? Por outro lado, se fico apenas com a luz, de nada sirvo, pois além da luz, preciso das flores para sobreviver, e elas de mim. A luz porém, é o principal, pois sem ela, nada vejo.
- Menina! Tô abismada! Queria compreender tudo isso.
- Para tal fim tu precisarias ter pêlos e passar pela experiência da noite! Ah! E na escuridão, tuas belas cores de nada teria utilidade pois não seriam vistas nem por ti mesma.
- Acho que mudei de idéia.
- Já esperava por isso. Nem todos estão dispostos a aceitar o caminho que nos leva à verdade, pois quem não está nele não o compreende, mas que está nele o compreende e passa a distinguí-lo dos falsos.
A borboleta fez como quem estivesse atrasada para alguma coisa muito importante e despediu-se rapidamente da mariposa. Seguiram então cada qual o seu caminho.
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